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No dia em que Jakob Schubert fez história no 9c, Filipe Ascensão estava na outra ponta da corda

O português viajou para La Ramirole com um objetivo próprio: encadear Spanish Caravan, 8c. Duas semanas depois, cumpriu-o. Pelo caminho, tornou-se amigo de Jakob Schubert e acabou a dar-lhe segurança no momento em que o austríaco fez a segunda ascensão de uma das vias mais difíceis do mundo e se tornou o primeiro escalador a encadear dois 9c.

Há viagens de escalada que ficam marcadas pelas vias que conseguimos encadear. Outras acabam por ser lembradas também pelas pessoas que encontramos e pelos momentos que, sem qualquer planeamento, passamos a viver de muito perto.

A passagem de Filipe Ascensão por La Ramirole, nas Gargantas do Verdon, acabou por juntar as duas coisas.

Depois do seu primeiro 9a, Filipe decidiu afastar-se temporariamente da rotina habitual. Tirou um ano de licença sem vencimento do trabalho como professor, com a intenção de voltar a viajar, escalar fora de Portugal e perceber se poderia construir um caminho profissional mais ligado à escalada. La Ramirole já fazia parte dos seus planos há quatro anos e, desta vez, decidiu que seria o primeiro destino.

O objetivo estava bem definido: Spanish Caravan, 8c, uma das linhas que mais queria experimentar. Francisco Pires acompanhou-o na viagem e, desde o início, insistiu para que Filipe não se dispersasse entre os muitos projetos do setor e mantivesse o foco na via que o tinha levado até ali.

Um 8c de 60 metros como primeiro objetivo

Spanish Caravan representava um desafio bastante diferente daquele a que Filipe estava habituado em Portugal. No Reguengo do Fetal, muitas das vias que costuma escalar rondam os 16 metros. Em La Ramirole, encontrou uma linha de aproximadamente 60 metros, onde não bastava resolver movimentos difíceis.

Era necessário aprender a gerir o esforço durante uma quantidade muito maior de escalada, perceber onde recuperar, dividir a via em secções e encontrar uma forma de chegar aos passos finais ainda com capacidade para continuar.

O processo demorou cerca de duas semanas. Filipe trabalhou cada parte da via, ajustou sequências e foi gradualmente percebendo como ligar tudo de forma consistente. Quando finalmente encadeou Spanish Caravan, Francisco estava na segurança e, no chão, Jakob Schubert, Gio Placci e o restante grupo com quem tinha passado aqueles dias acompanhavam a tentativa.

Filipe recorda esse ambiente como uma parte importante do próprio encadeamento:

«Foi um daqueles momentos em que sentimos que o encadeamento não é apenas nosso.»

Durante aquelas semanas, os projetos eram individuais, mas havia uma energia coletiva muito forte. Cada um tinha a sua própria via para resolver, mas as tentativas, as conversas e os sucessos acabavam por ser partilhados por todos.

Jakob chega a La Ramirole

Filipe e Jakob não se conheciam antes da viagem. O austríaco chegou ao setor no terceiro dia de Filipe e a relação começou de forma natural, entre conversas à base da parede, troca de informação sobre as vias e incentivo durante as tentativas.

Com o passar dos dias, começaram a escalar juntos com mais frequência. Filipe acompanhava também Gio Placci, que trabalhava outra linha dura no setor, e entre os três criou-se um ambiente de colaboração pouco formal, mas muito presente.

Foi nesse contexto que Jakob perguntou a Filipe se estaria no setor no dia seguinte e se poderia dar-lhe segurança numa tentativa. Filipe aceitou. Só nessa altura soube, através da equipa de Jakob, que aquela seria também a primeira vez que fariam uma transmissão em direto de uma tentativa.

A situação tinha uma ironia especial. Filipe tinha viajado para França também para se afastar da exposição mediática que tinha surgido depois do seu primeiro 9a. Queria simplesmente viajar, escalar e estar mais tranquilo. Pouco depois, encontrava-se em direto, na outra ponta da corda de um dos melhores escaladores do mundo.

«Eu tinha ido para França, em parte, para fugir à exposição mediática [...] e acabei por receber uma quantidade enorme de mensagens por causa de estar a dar segurança ao Jakob.»

Quando os projetos se cruzam na mesma parede

Havia ainda uma coincidência curiosa entre os projetos.

Spanish Caravan entra pela direita e partilha a secção final da parede com a linha que Jakob estava a trabalhar. Gio Placci também se encontrava ali a tentar La Rage d’Adam, o que significava que, em determinados momentos, os três projetos acabavam por competir pelo mesmo espaço.

Filipe chegou a brincar com Jakob e Gio:

«Malta, se for eu a encadear, vocês têm os dois de parar porque eu venho da direita. Quem vem da direita tem prioridade!»

Até numa parede deste nível, aparentemente, as regras de trânsito continuam a aplicar-se.

“Este gajo vai encadear hoje”

O dia anterior à tentativa histórica não tinha sido particularmente bom para Filipe. Tanto ele como Gio tinham terminado no hospital. Filipe lesionara o bíceps e Gio sofrera uma pequena entorse.

Mesmo assim, no dia seguinte Filipe regressou ao setor para dar segurança a Jakob.

Durante o aquecimento, viu-o passar uma secção de aproximadamente 8a+ com uma facilidade que lhe chamou imediatamente a atenção. As condições estavam boas e Jakob parecia especialmente sólido.

A sensação de Filipe foi imediata:

«Meu, este gajo vai encadear hoje.»

Quando Jakob passou o primeiro bloco duro, Filipe ficou ainda mais convencido. A sensação era semelhante à que ele próprio tinha tido antes do encadeamento de Spanish Caravan: depois de ultrapassar uma determinada secção, sentia que a queda já dificilmente aconteceria.

E foi exatamente isso que aconteceu.

Jakob Schubert chegou à reunião de DNA, 9c, realizando a segunda ascensão da via e tornando-se o primeiro escalador da história a ter dois 9c no currículo.

Na outra ponta da corda estava Filipe Ascensão.

Um português no centro de um momento histórico

Quando Jakob voltou ao chão, os dois abraçaram-se. O momento ficou registado em vídeo, mas, para Filipe, o significado daquele instante não estava apenas no grau ou na dimensão histórica da ascensão.

Estava na possibilidade de acompanhar de perto o trabalho de alguém durante vários dias e estar presente quando todo esse esforço finalmente resultava.

«Para mim, representa muito bem aquilo que se procura viver na escalada: partilhar a felicidade de alguém que acabou de conseguir algo em que trabalhou tanto.»

A responsabilidade de estar na segurança de uma tentativa desta dimensão poderia parecer completamente diferente daquilo que acontece num dia normal de escalada. Filipe, no entanto, prefere não dramatizar.

Jakob sabe exatamente o que está a fazer e a função de Filipe passava sobretudo por gerir corretamente a corda, acompanhar o que estava a acontecer na parede e transmitir confiança.

Para ele, dar segurança nunca é apenas uma questão mecânica.

«Acredito que existe uma troca de energia entre quem escala e quem dá segurança.»

Essa confiança tinha sido construída durante os dias anteriores. Falavam sobre movimentos, secções ainda por resolver e possíveis soluções. Filipe transmitia aquilo que conseguia observar do chão, enquanto Jakob explicava o que estava a sentir na parede.

Ver um 9c para lá dos vídeos

A proximidade com Jakob permitiu também a Filipe observar algo que raramente aparece nos vídeos finais de grandes encadeamentos.

O que mais o impressionou não foi apenas a capacidade física do austríaco, mas a forma como analisava e resolvia os problemas da via. Entre sessões, havia alterações, novas soluções e uma procura constante por tornar a execução mais consistente.

Não se tratava simplesmente de repetir a via até que, num determinado dia, tudo funcionasse.

«Havia uma procura constante por perceber o que podia melhorar e como chegar ao encadeamento.»

Filipe acompanhava essas conversas e via diretamente como a abordagem evoluía de uma sessão para a seguinte. Esse contacto diário permitiu-lhe observar de muito perto um nível de preparação que normalmente só chega ao público depois de filtrado por vídeos e edições.

O apoio também funcionava no sentido contrário

A história de La Ramirole não foi apenas Filipe a apoiar Jakob.

Quando Filipe encadeou Spanish Caravan, Jakob estava no chão juntamente com Gio e o restante grupo, a puxar por ele durante a tentativa. Francisco dava-lhe segurança.

Num vídeo desse dia, Jakob pode ser ouvido a dizer:

«No talking, just breathing!»

A frase tem um significado especial porque Filipe admite que tem tendência para falar com toda a gente enquanto está a escalar. Naquele momento, Jakob pareceu considerar que era melhor guardar o oxigénio para os últimos metros da via.

Filipe queria manter o encadeamento relativamente discreto, mas esse plano também não durou muito. Jakob acabou por mencionar num dos seus vídeos que o português tinha feito Spanish Caravan e, pouco depois, começaram novamente a chegar mensagens de amigos em Portugal, sobretudo de Reguengo e da Nossa Senhora do Salto.

Era mais uma pequena ironia numa viagem em que Filipe tinha procurado precisamente alguma distância da atenção criada à volta dos seus próprios resultados.

Depois do 9a, um 8c que abriu outras perguntas

É fácil deixar que o 9c de Jakob domine toda a narrativa, mas La Ramirole representou também um passo importante na trajetória de Filipe.

Pouco depois do seu primeiro 9a, poderia ter procurado simplesmente outro projeto com um número semelhante ou superior. Em vez disso, Spanish Caravan apresentou-lhe um desafio diferente: uma via extraordinariamente longa para aquilo a que estava habituado, onde o problema principal não era apenas a intensidade dos movimentos, mas a capacidade de gerir dezenas de metros de escalada.

O resultado confirmou que Filipe consegue adaptar-se a estilos bastante diferentes e deixou também uma impressão em Jakob. Depois do encadeamento, o austríaco disse-lhe que acreditava que tinha capacidade para fazer algo mais difícil.

Filipe recebeu o comentário com satisfação, mas sem alterar demasiado a forma como olha para o próprio futuro.

«Continuo a achar que estou longe do meu limite e que ainda tenho muito para explorar na escalada.»

Mais do que definir antecipadamente um grau máximo, Filipe quer continuar a perceber até onde consegue chegar.

Muito mais do que números

Em poucas semanas, Filipe passou de um dos momentos mais importantes da sua própria carreira para estar presente num dos acontecimentos mais relevantes da escalada desportiva mundial.

Fez Spanish Caravan, 8c, numa parede de cerca de 60 metros, depois de aproximadamente duas semanas de trabalho. Conheceu e tornou-se amigo de alguns dos melhores escaladores do mundo. Observou de perto o processo de trabalhar uma via de 9c e acabou por estar na segurança no momento em que Jakob Schubert conseguiu o encadeamento.

Mas talvez a parte mais interessante da história esteja na forma como tudo isso aconteceu.

Filipe foi para La Ramirole à procura de uma via e encontrou uma pequena comunidade temporária construída à volta de uma parede. Cada pessoa estava concentrada no seu próprio projeto, mas havia troca de informação, apoio e uma vontade genuína de ver os outros conseguir.

No dia em que Jakob fez história, Filipe estava na outra ponta da corda. No dia em que Filipe fez Spanish Caravan, Jakob estava no chão a apoiá-lo.

É uma imagem simples daquilo que esta viagem acabou por representar: mesmo quando a escalada parece um desporto profundamente individual, muitos dos momentos que ficam são construídos em conjunto.

Agora, o próximo objetivo de Filipe é recuperar totalmente da lesão no braço, regressar ao treino e perceber qual será o passo seguinte. Depois de uma viagem marcada por resultados, novas amizades e um inesperado lugar na história de um 9c, não sente necessidade de antecipar demasiado o futuro.

«Primeiro tenho de recuperar e voltar a estar a cem por cento. Depois logo se vê. O futuro ninguém sabe.»

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