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São Bloc 2026: um regresso às raízes, mais do que uma competição.

São Bloc 2026: um regresso às raízes, mais do que uma competição.

Seis anos depois da primeira edição, o São Bloc regressa em 2026 com vontade de olhar para as suas origens. A competição cresceu, trouxe atletas de diferentes pontos do país e do estrangeiro, aumentou o nível competitivo e conquistou o seu espaço no calendário da escalada nacional. Mas, no São Rock, há uma ideia que continua a ser mais importante do que qualquer classificação: o São Bloc nasceu para juntar pessoas.

Ao longo destes seis anos, também a escalada no Porto mudou. Surgiram novos espaços, novas comunidades, marcas, projetos, atletas e routesetters. O São Rock cresceu com esse movimento e tornou-se simultaneamente casa para quem escala de forma recreativa e espaço de treino e desenvolvimento para alguns dos atletas que levam a competição mais a sério.

Na 6.ª edição, a organização quer recuperar ainda mais o espírito de festival que marcou o nascimento do evento: todos a escalar no mesmo espaço, problemas para diferentes níveis, partilha de betas, música, comida, brindes e uma comunidade reunida durante um fim de semana.

Falámos com Luísa Xavier, responsável pelo São Rock, sobre os seis anos de São Bloc, o crescimento da competição, a evolução da comunidade de escalada no Porto e, sobretudo, sobre por que razão este continua a ser um evento para quem gosta de escalar, mesmo para quem não gosta de competir.


O São Rock celebra seis anos e o São Bloc chega também à sua 6.ª edição. Quando olhas para 2020/2021 e para aquilo em que ambos se transformaram, o que mais te surpreende?

Sem dúvida, o alcance. A quantidade de pessoas que passam tanto pelo São Rock no dia a dia, quanto no Sao Bloc, oriundas do mundo inteiro. Também me alegra perceber que grande parte do feedback repercute-se constantemente, desde o início. Quem chega hoje diz-nos as mesmas coisas que nos disseram nos primeiros anos. E sabe bem perceber que essa identidade se mantém inalterada.

O São Bloc nasceu com uma ideia muito aberta, de juntar pessoas e celebrar a escalada. Sentiram que, à medida que a competição cresceu e entrou cada vez mais no circuito competitivo oficial, se afastou um pouco dessas raízes?

Sim, é perceptível que o grau de competitividade entre parte do público da prova vem crescendo, o que é também expectável quando há um crescimento de competidores no cenário nacional e com a vinda de atletas de fora do país, sem referir a possibilidade de receber um prize money significativo. Não acredito que este facto tenha afastado o São Bloc das suas raízes, até porque nos dois primeiros anos o formato era de campeonato nacional pela federação que tutelava o desporto a nível nacional. Entretanto,a organização sempre prezou por chegar a um público diverso e fazer da prova acessível a novos praticantes que por sua vez podem ter vindo a ficar um  pouco intimidados à medida que essa competitividade foi crescendo. Consigo entender, enquanto entusiasta deste evento como festival, que escalar rodeada de atletas vestidos com equipamentos oficiais dos clubes, possa parecer, por vezes, intimidante. E por isso, fica aqui o meu desejo pessoal, de um dia ver numa prova open menos equipamentos. 

Este ano falam precisamente num regresso ao espírito de festival. O que vos fez sentir que era altura de voltar nessa direção?

Com o facto da prova ter crescido muito no sentido de ter grande parte dos inscritos vindos de outros lugares, países,  e também com o advento de outros formatos de competição com cariz mais divertido, chamemos assim, na região, nós sentimos que os frequentadores do São Rock que começaram a escalar nos últimos 2/3 anos do São Rock não estavam tão familiarizados com o espírito da prova. 

Existe a ideia de que uma competição de bloco é para quem treina para competir ou escala muito forte. O que querem dizer a quem olha para o São Bloc e pensa “isto não é para mim”?

Acredito que uma competição com o formato e a atmosfera do São Bloc, consegue reproduzir muito daquilo que para mim há de mais prazeroso na escalada indoor, especialmente da vertente de bloco, que é partilha muito genuína de betas e de uma comunhão imensa em prol do encadene daqueles desafios. Ver a malta vibrar por conseguir algo que achava que não conseguiria, vibrar pelo outro que está a conseguir, mesmo que esse outro esteja num nível diferente do seu. Sem contar que também proporciona a observação das várias formas de escalar, dos variados estilos, é algo muito enriquecedor para quem gosta de escalar, mesmo que não goste de competir no sentido mais estrito da palavra. Verdadeiramente quando penso no momento do contest do São Bloc, naquelas 8h, o que menos me vem à cabeça é a palavra competição.

Na prática, o que vai mudar nesta edição para que alguém que escala 5, 6a ou 6b, ou que nunca participou numa competição, possa aparecer e sentir que também está a participar no São Bloc?

Nesta edição temos um grupo de routesetters com vasta experiência, e quem tem uma ligação à casa de muito carinho. A maioria já esteve a equipar na prova e compreendem esse espírito de festival e comunhão. Também estamos muito empenhados em preparar um bom ambiente, a tentar o máximo de brindes para o sorteio, a cuidar do espaço para que seja um tempo muito bem passado por parte de quem estiver presente. 

O formato do São Bloc foi inspirado no Studio Bloc Masters e desde cedo procurou juntar níveis muito diferentes. O que vos atrai nesse modelo em comparação com uma competição mais tradicional?

Na verdade é um formato muito aproximado das regras das competições oficiais, entretanto que se adapta bem ao facto de existirem níveis diferentes de graduação dos blocos. E muito nos atrai o facto de durante o primeiro dia, no contest, existir a partilha do espaço e dos blocos por todos os participantes, não há uma separação de horário por nível de escalada.  

Acreditamos que essa partilha é muito enriquecedora para todos numa prova em formato open que permite esse convívio que nos é tão importante. Do ponto de vista das regras proporciona também essa experiência de se aproximar do que um atleta na copa do mundo vive e sente - semifinal e final. 

Ao mesmo tempo, o São Rock tornou-se uma casa importante para a escalada de competição no Porto e para atletas através do PICO. Como equilibram esses dois mundos, alta competição de um lado e escalada recreativa e comunidade do outro?

Sinto que existe uma simbiose, que essas vertentes da escalada acabam por se retroalimentar. É muito enriquecedor para quem está ali de forma despretensiosa e recreativa poder ver um atleta treinar, ver de perto toda a dedicação e esforço, e por vezes, poder interagir com ele. E para o atleta também é importante esse sentido de comunidade, de acolhimento, ao longo do ano onde há tanto trabalho duro e bastante individual a ser feito.

Tu própria já disseste que, apesar da escalada depender muito da performance individual, continua a ser um desporto profundamente comunitário. Uma competição pode reforçar essa comunidade em vez de criar apenas rivalidade? Como?

Sem dúvida, mesmo com as mudanças sofridas pela modalidade, ainda é uma competição do atleta com ele mesmo, ou seja, por mais que possa haver uma combinação de fatores para o resultado da competição, se o atleta não conseguir por ele encadenar o bloco pouco adianta o resultado do outro atleta.  E para o público, para a comunidade, mesmo que cada espectador possa ter o seu favorito, acredito que não há nada mais entusiasmante do que ver uma bela prestação com muitos encadenes.

Quando começaram, havia muito menos escalada indoor e muito menos competição no Porto. O que mudou na comunidade de escalada da cidade nestes seis anos? E o que achas que o São Rock e o São Bloc ajudaram a mudar?

Sem dúvida que o cenário hoje é bastante diferente de quando inauguramos do São Rock e da 1º edição do São Bloc, desde o facto abrirem outros espaços com outras propostas do ponto de vista de negócios, como também começarem a surgir comunidades com o intuito de reunir malta para ir a rocha, para desenvolver setores, para aproximar e conectar pessoas que gostam de escalar e a formação de mão de obra. Outra grande mudança foi o surgimento das marcas de produtos e serviços relacionados à escalada, como é o caso da Creme no fabrico das presas, que tem uma ligação bastante direta a nós. Gostava também de destacar o Nau Solutions, uma vez que estamos a falar de competição, é um sistema que veio contribuir para a organização da prova desde as inscrições até aos resultados e classificações. O que não faltam são exemplos desse ambiente que se criou à volta da escalada e que ainda está em ebulição. É uma grande alegria vivenciar e fazer parte dessa comunidade.

Na formação de routesetters, assim numa contagem rápida passaram, pelo São Rock e pelo São Bloc, mais de 20 routesetters que na altura estavam a ter a primeira ou, em outros casos, das primeiras, oportunidades nesta área. É algo que está na nossa génese, dar espaço aos novos interessados pela escalada. Também servimos de vitrine e espaço de experimentação de produtos e serviços de escalada. Numa troca muito honesta e que beneficia a todos. Sem contar como ponto de encontro para grupo/comunidades que não param de surgir.

A formação de mão de obra na área da escalada é algo que nos importa e que sempre visionamos como um caminho para dinamizar a comunidade. Desde a formação de treinadores, ao apoio a atletas, mantendo-nos sempre de portas abertas para receber e acolher todos os projetos que pretendem contribuir para o desenvolvimento da escalada.

Uma característica do São Bloc sempre foi haver muito mais à volta da competição, desde música e festa a workshops, formação, comida e projetos locais. O que gostariam que alguém levasse do fim de semana mesmo que não esteja minimamente interessado em ganhar?

Boas memórias, um sorriso no rosto e muita vontade de voltar no próximo ano, seja para ter um resultado pessoal melhor, seja para tentar a sorte no sorteio de brindes, ou para beber um fino e deliciar-se com uma sandocha na presença dos amigos, especialmente daqueles que moram longe e se reúnem no São Bloc.

Há algum momento das cinco edições anteriores que, para ti, represente perfeitamente aquilo que queres recuperar este ano?

A partilha no momento do sorteio, essa grande festa onde os resultados não são tão relevantes.

Se tivesses de convencer alguém que nunca competiu e que normalmente fugiria de um evento chamado “competição” a inscrever-se no São Bloc 2026, o que lhe dirias?

Como o público alvo é bastante diverso citaria aqui algumas camadas. Para os que gostam de desafio e superação podem ter a certeza que terão um ambiente propício pra isso. Para quem como eu, gosta de escalar mas gosta mesmo é do convívio, não melhor experiência do que essa porque o clima da prova é ideal para dar e receber, é muito alegre e divertido. Sem contar que podem ganhar boas coisas no sorteio, ouvir boa música pensada pra prova e saborear boa comida. O ponto alto é mesmo essa interação, verbal ou não verbal, intencional ou não… Que estejamos abertos a dar e receber de maneira genuína e espontânea… assim crescer, evoluir, ou melhor simplesmente desenvolver-nos, transformar-nos. E claro é uma belíssima oportunidade para os que gostam de admirar ver aqueles que se dedicam e escalam de uma maneira tão inspiradora, de poder apreciar esse desporto, essa atividade que é tão ancestral e inata ao nosso desenvolvimento como seres humanos e que por vezes está adormecida em nós.


Se há uma ideia que atravessa toda a conversa com Luísa Xavier, é que o crescimento do São Bloc não precisa de significar perder aquilo que o tornou especial. Pode haver atletas, finais, resultados e blocos difíceis, mas pode continuar a haver espaço para quem aparece apenas para experimentar, superar um problema, partilhar um beta ou reencontrar amigos.

Talvez seja essa a melhor forma de olhar para a 6.ª edição: não apenas como uma competição de bloco, mas como um encontro anual de uma comunidade que cresceu muito nos últimos seis anos. Uma comunidade onde cabem atletas e iniciantes, quem procura performance e quem procura apenas uma boa sessão.

No final, o objetivo é surpreendentemente simples: sair com boas memórias, um sorriso no rosto e vontade de voltar no próximo ano.

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