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A Ditadura do Grau: Filipe Ascensão e a história do terceiro 9a de Portugal

A Ditadura do Grau: Filipe Ascensão e a história do terceiro 9a de Portugal

Depois de quase 11 meses de projeto, mais de 150 tentativas e 17 kneebars afinados ao milímetro, a 28 de agosto de 2026, Filipe Ascensão realizou o primeiro encadene de A Ditadura do Grau, no Reguengo do Fetal, propondo 9a para uma linha que ele próprio imaginou e equipou. É o terceiro 9a em Portugal e um novo capítulo numa zona que, nos últimos anos, voltou a ganhar vida.

Portugal continua a ter poucas vias e poucos encadeamentos nos graus mais altos da escalada desportiva. A comunidade é pequena e a modalidade permanece um desporto de nicho quando comparada com aquilo que encontramos do outro lado da fronteira, em Espanha ou França.

Mas o cenário está a mudar. 

A abertura de novos ginásios trouxe mais pessoas para a escalada e está a criar uma nova geração de escaladores, muitos que começam no plástico e acabam, mais cedo ou mais tarde, por descobrir a rocha. Ao mesmo tempo, algumas das escolas históricas portuguesas estão a ganhar uma nova vida, e o Reguengo do Fetal é talvez um dos melhores exemplos desse movimento.

O regresso do Reguengo

Durante algum tempo, o Reguengo foi perdendo parte do movimento que tivera outrora. Algumas vias precisavam de atenção, a frequência diminuiu e uma escola com uma longa história na escalada portuguesa ficou, de certa forma, adormecida. Nos últimos anos isso começou a mudar.

Filipe Ascensão foi uma das figuras centrais nesse renascimento. Para além de equipar novas linhas, esteve envolvido na reequipagem de vias existentes e na recuperação do interesse pela escola.

Mas recuperar uma zona de escalada não passa apenas por colocar material novo na parede, é crucial voltar a levar pessoas até lá e desse esforço nasceu também a comunidade Reguenguices, um grupo criado por Filipe que ajudou a unir novamente escaladores à volta do Reguengo. Aos poucos regressaram os encontros de fim de semana, os projetos, as pessoas a dar segurança umas às outras e a vontade de continuar a desenvolver a zona. 

É um detalhe importante para perceber a história de A Ditadura do Grau. O 9a não apareceu isoladamente numa parede, nasceu no meio desse processo de recuperação, reequipamento, desenvolvimento e reconstrução de uma comunidade, e foi essa mesma comunidade que integra agora uma nova geração de escaladores que, meses mais tarde, estaria debaixo da via a acompanhar as tentativas de Filipe.

Uma linha construída no Reguengo

A Ditadura do Grau surgiu da vontade de criar algo diferente no setor Entrada, ligando algumas das secções mais duras que já existiam: a linha começa na Rosbife (8a+), passa por uma secção nova, segue para Zé dos Telhados (7c+), Os Illuminati (8b), Multidão Dissidente (8c) e Waleczna Lidka (8b), e termina no topo de Percentil 85 (8b).

Para Filipe, a ligação à via é particularmente pessoal. “Fui eu que equipei a linha e também a maior parte das vias por onde ela passa, por isso existe uma ligação muito pessoal com este projecto.”, explica. 

Não se tratava simplesmente de juntar várias vias. A ideia foi, conta, “encontrar novas ligações através dos diferentes cruxes e criar uma sequência completamente nova.”

A Ditadura do Grau", no fundo, é uma via construída literalmente à volta de vários graus”, refere, fazendo do próprio nome da via uma provocação à cultura da escalada e à importância que se atribui a um grau.

Há uma certa ironia no resultado, já que essa provocação acabou por acrescentar um número importante à história recente da escalada portuguesa: 9a.

“Muitas vezes a motivação veio mais do grupo do que de mim próprio”

Esta dimensão coletiva volta a aparecer quando Filipe fala dos quase 11 meses que passou no projeto, um esforço que requer regressar à mesma parede vezes sem conta, e significa também precisar constantemente de alguém do outro lado da corda.

Aqui, destaca Nuno, que o acompanhou durante grande parte do processo, mas fala igualmente da comunidade que se formou à volta da escola.

“Havia sempre pessoas no Reguengo a puxar, a acompanhar o projecto e a criar aquele ambiente que me fazia querer voltar”, recorda. Acrescenta: “Acho que, sem essa energia das Reguenguices, teria sido muito mais difícil manter a motivação durante tanto tempo.”

É difícil separar A Ditadura do Grau daquilo que aconteceu no Reguengo durante estes anos em que Filipe ajudou a trazer pessoas de volta à escola. No final, foram essas pessoas que o ajudaram a continuar a voltar.

Uma nova geração a ver

À medida que o projeto parecia mais próximo do fim, as tentativas de Filipe começaram a transformar-se num pequeno acontecimento naquele sector.

“Cada vez que começava a escalar, o Reguengo praticamente parava e toda a gente se juntava em modo anfiteatro para ver.” O encadeamento acabou por acontecer quase de noite, e na assistência encontravam-se também escaladores mais novos que fazem parte dessa nova vida do Reguengo.

“Ter a nova geração de escaladores do Reguengo ali a assistir tornou aquele momento muito diferente. Foi uma sensação muito especial ver pessoas mais novas a acompanhar algo que também faz parte da história e do desenvolvimento daquele sector”, confessa.

Talvez seja esse um dos aspetos mais interessantes do terceiro 9a português. Além do grau, dos 17 kneebars, das cerca de 180 tentativas e os quase 11 meses de trabalho, há também uma escola que estava a perder movimento, vias que voltaram a ser equipadas, novas linhas, uma comunidade que se formou e uma geração mais nova que começa agora a ocupar o espaço debaixo daquelas paredes.

Quando Filipe finalmente encadeou A Ditadura do Grau, essas pessoas estavam lá, e o Reguengo parou para ver.


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