Ilha Terceira: 400 blocos, basalto vulcânico e uma história de escalada ainda por descobrir
Na ilha Terceira, nos Açores, a escalada de bloco desenvolve-se entre falésias junto ao Atlântico. Com cerca de 400 linhas documentadas, mais de uma dezena de zonas e um potencial ainda longe de estar esgotado, a ilha guarda uma história de descoberta, persistência e dedicação de uma pequena comunidade de escaladores. Paulo Vaz, do Clube Desportivo Montanheiros, leva-nos numa viagem pela evolução do bloco terceirense, desde as primeiras aberturas em 2004 até aos projetos que poderão marcar o futuro da modalidade no arquipélago.
A ilha Terceira não é propriamente o primeiro destino que surge na cabeça de quem planeia uma viagem de escalada. Conhecida pelas paisagens vulcânicas, pelo verde das pastagens e pela cidade de Angra do Heroísmo, a ilha esconde também um património de escalada de bloco que começou a ser desenvolvido de forma sistemática em 2004.
Desde então, o trabalho de sucessivas gerações de escaladores transformou afloramentos rochosos e extensos caos de blocos em setores com centenas de linhas, algumas das quais entre as mais exigentes do arquipélago. E, ao contrário do que a sua dimensão poderia sugerir, a Terceira oferece uma diversidade surpreendente de estilos, tipos de presas e ambientes naturais.
Para conhecer melhor esta história, o Rock Climbing Portugal conversou com Paulo Vaz, do Clube Desportivo Montanheiros, uma das figuras ligadas ao desenvolvimento da modalidade na ilha. Da descoberta dos primeiros blocos aos desafios de manter uma comunidade ativa num território insular, a sua experiência permite compreender como a escalada terceirense foi crescendo, muitas vezes graças à iniciativa e ao trabalho voluntário dos próprios praticantes.
De Braga para os Açores: o início de uma nova história
Quando Paulo Vaz chegou à ilha Terceira, em junho de 2004, não encontrou qualquer linha de bloco identificada ou desenvolvida. A escalada em rocha já tinha alguma presença na ilha, mas existiam poucas vias equipadas e o número de praticantes era reduzido.
Vindo de Braga, onde escalava regularmente em locais como a Senhora da Assunção, em Santo Tirso, Paulo sentiu necessidade de encontrar alternativas para continuar a praticar a modalidade.
"Quando cheguei à ilha Terceira, em junho de 2004, não existia qualquer linha de bloco identificada ou desenvolvida na ilha."
Foi essa procura que levou à descoberta e abertura das primeiras linhas junto à costa de São Mateus da Calheta e, posteriormente, na Chanoca.
Entre 2004 e 2007, a exploração desta última zona estabeleceu algumas das primeiras referências da escalada de bloco na ilha. Aos trabalhos iniciais juntaram-se jovens escaladores que Paulo começou a treinar, dando origem a uma comunidade que, apesar da sua pequena dimensão, começava a desenvolver uma identidade própria.
A Chanoca viria a tornar-se um dos locais mais importantes da história do bloco terceirense, reunindo linhas de diferentes dificuldades, projetos exigentes e um enorme potencial para novas aberturas.
A Irmandade da Topalhada e o salto de nível em 2008
Um dos momentos decisivos aconteceu em 2008, com a visita à Terceira da Irmandade da Topalhada, grupo de escaladores do continente que incluía José Abreu e Filipe Cardinal.
A passagem destes escaladores contribuiu para elevar significativamente o nível técnico da escalada local e estabelecer novas referências de dificuldade.
Foi durante essa visita que José Abreu encadeou SOS Cagarro (7C), na Chanoca, uma linha que durante vários anos permaneceu entre os blocos mais difíceis da ilha.
"A visita de escaladores como o José Abreu, o Filipe Cardinal e os restantes membros da Irmandade, na época elevou significativamente o nível da escalada local."
Mais do que uma ascensão isolada, SOS Cagarro representou uma mudança de patamar. A linha, juntamente com outras abertas durante essa visita, passou a servir de referência para a graduação de problemas posteriores.
Entretanto, o desenvolvimento de uma equipa jovem de competição começava também a produzir resultados na rocha.
Entre os nomes dessa geração destaca-se Ricardo Costa, que, com apenas 17 anos, conseguiu repetir SOS Cagarro e abrir algumas das linhas mais exigentes da Terceira, incluindo Fly Boys (7C) e Reino Animália (7B+/7C), além de numerosos problemas de 7B.
Outro nome incontornável é o de Baresi, que desempenhou um papel fundamental na exploração, limpeza e desenvolvimento de vários setores. Atualmente residente em São Miguel, continua ligado à descoberta e preparação de novas linhas.
Esta fase marcou a passagem de uma exploração essencialmente pioneira para uma comunidade progressivamente mais experiente, com capacidade para desenvolver problemas de dificuldade elevada e explorar novas áreas da ilha.
2010: novos setores, melhores condições de treino
Por volta de 2010, a exploração começou a estender-se de forma mais sistemática ao interior da ilha.
A descoberta do potencial do Chupa Cabras e de setores como Troika, Kadafi e Terra do Nunca abriu uma nova etapa no desenvolvimento da modalidade. Ao contrário das zonas costeiras, estes locais exigiram trabalhos consideráveis de limpeza da vegetação, preparação dos blocos e abertura de acessos.
Foi também em 2010 que se construiu um muro de escalada no ginásio do Regimento de Guarnição n.º 1, no Monte Brasil.
A nova infraestrutura permitiu melhorar as condições de treino dos escaladores locais, contribuindo para a evolução técnica e para o aparecimento de novas gerações de praticantes.
Em 2016, a criação do Clube Desportivo Montanheiros (CDM) e a transferência do muro de treino para a Escola Tomás de Borba, onde foi ampliado, representaram outra mudança importante.
A modalidade passou a beneficiar de uma estrutura organizativa mais autónoma, com melhores condições para a formação de atletas, preparação competitiva e promoção da escalada junto da população.
A partir de 2021, iniciou-se um novo esforço de revitalização dos setores do Chupa Cabras, com limpeza, recuperação de blocos e abertura de novas linhas. Paralelamente, começou um levantamento sistemático dos problemas existentes, um trabalho que continua em curso e que deverá abranger outras zonas históricas, nomeadamente a Chanoca.
O resultado de todo este percurso é uma ilha que conta atualmente com cerca de 400 linhas compiladas e registadas, embora uma parte significativa do seu potencial continue por explorar.
Chanoca: onde a história começou
Situada junto ao oceano, a Chanoca é provavelmente a zona mais histórica e emblemática da escalada de bloco na Terceira. Foi aqui que surgiram algumas das linhas que marcaram a evolução da modalidade e onde continuam a existir projetos de elevada dificuldade por resolver.
A paisagem é dominada por um extenso caos de blocos basálticos, com formações que oferecem uma escalada predominantemente física, frequentemente em placas sobreprumadas.
O basalto apresenta uma textura abrasiva e cortante, característica que distingue a zona de outros setores do interior da ilha. A proximidade do mar tem, contudo, uma vantagem importante: reduz o crescimento de musgos e vegetação sobre a rocha, permitindo que muitas linhas permaneçam escaláveis durante anos sem grandes intervenções de manutenção.
A disposição dos blocos também apresenta desafios. Em algumas linhas, as zonas de receção são complexas, tornando necessário transportar vários crash pads para garantir melhores condições de segurança.
É neste cenário que se encontra SOS Cagarro (7C), um dos problemas mais importantes da história da escalada terceirense. A Chanoca continua igualmente a guardar numerosos projetos de dificuldade elevada, alguns ainda à espera da primeira ascensão.
Chupa Cabras: o coração do bloco terceirense
Se a Chanoca representa as origens da modalidade, o Chupa Cabras tornou-se uma das suas principais referências atuais.
Situada no interior da ilha, numa zona de afloramentos rochosos junto a pastagens, esta área distingue-se pela concentração de problemas, acessos rápidos e boas zonas de receção.
É também a zona favorita de Paulo Vaz, que destaca a qualidade da escalada, a variedade de movimentos e o ambiente natural.
"Pela combinação entre quantidade de linhas, qualidade da escalada, conforto e beleza natural, é uma das áreas que melhor representa o potencial da escalada de bloco na ilha Terceira."
O basalto do Chupa Cabras apresenta uma textura relativamente suave, muito diferente da rocha abrasiva da Chanoca. Esta característica permite escalar durante vários dias consecutivos com menor desgaste da pele, uma vantagem particularmente interessante para quem visita a ilha durante uma semana.
A escalada é variada, com problemas técnicos que exigem precisão de pés, equilíbrio e leitura dos movimentos, mas também linhas mais físicas e explosivas.
A orientação dos setores e a vegetação circundante proporcionam sombra durante a tarde, permitindo encontrar condições agradáveis mesmo nos meses mais quentes.
A partir de 2021, o Chupa Cabras foi alvo de um importante trabalho de revitalização, com recuperação de blocos antigos, novas aberturas e levantamento das linhas existentes.
Atualmente, é também o centro das atenções devido a Mandala, um projeto cuja dificuldade estimada se situa entre o 8A e o 8A+.
Entre os escaladores que têm trabalhado esta linha encontram-se Pedro Pato, Mateus Belloto e Gustavo Cunha. Caso a dificuldade proposta se confirme, a sua primeira ascensão poderá representar mais um marco importante na evolução do bloco da Terceira.
Caparica: um basalto que faz lembrar calcário
Perto dos Biscoitos encontra-se a Caparica, uma área ainda relativamente pouco explorada, mas que Paulo considera particularmente promissora.
Os blocos surgem dispersos pelas pastagens verdes, criando uma paisagem muito diferente dos caos rochosos da costa ou dos setores escondidos no interior das matas.
A principal singularidade está, contudo, na própria rocha.
Embora se trate igualmente de basalto vulcânico, as formações apresentam características pouco habituais na ilha, com predominância de goteiras, monodedos e bidedos, fazendo recordar, em alguns aspetos, a escalada em calcário.
Esta combinação de presas e movimentos confere à Caparica uma identidade própria, acrescentando mais uma dimensão à diversidade da escalada terceirense.
Serra da Ribeirinha: novos blocos com vista para o Atlântico
Uma das descobertas mais recentes encontra-se na Serra da Ribeirinha, onde começaram a ser desenvolvidos vários agrupamentos rochosos ao longo de um percurso pedestre sinalizado.
A existência do trilho facilita o acesso às linhas, enquanto a localização no topo da serra oferece uma vista privilegiada sobre Angra do Heroísmo, o Monte Brasil e o oceano Atlântico.
Entre os problemas já abertos destaca-se um 7B+ de Pedro Pato, numa zona cujo potencial continua longe de estar completamente explorado.
Para Paulo Vaz, a combinação entre a qualidade da rocha, a tranquilidade e o enquadramento paisagístico poderá transformar a Serra da Ribeirinha num dos destinos preferidos dos escaladores que visitam a Terceira nos próximos anos.
Grota do Medo, Veredas e Route 66: o que ainda falta descobrir
A diversidade da ilha não termina nas suas zonas mais conhecidas.
Nos arredores de Angra do Heroísmo, a Grota do Medo apresenta um elevado potencial para a escalada de bloco. Situada numa área de mata, na continuidade do afloramento rochoso do Chupa Cabras, é também conhecida pelas referências à existência de um alegado complexo megalítico.
É aqui que se encontra aquele que Paulo considera o mais belo projeto de bloco da ilha, ainda por encadear.
A zona merece uma visita mesmo para quem não pretende escalar, combinando natureza, formações rochosas e um ambiente muito particular. Existem igualmente algumas vias curtas equipadas, entre as quais Inspetor Max (7a).
As Veredas destacam-se sobretudo pelo enquadramento paisagístico, que Paulo coloca ao nível da Serra da Ribeirinha.
Já a área conhecida como Route 66, situada perto de Angra do Heroísmo e do Chupa Cabras, apresenta problemas abertos dos dois lados da estrada. Embora seja pouco conhecida, reúne linhas interessantes e mantém um potencial considerável para novas descobertas.
Estas são apenas algumas das mais de dez zonas e setores de bloco existentes na Terceira. Muitas outras áreas contam já com linhas abertas, embora permaneçam pouco divulgadas ou documentadas.
É precisamente esta distribuição geográfica que torna a ilha particularmente interessante: num único dia, é possível passar de blocos junto ao oceano para problemas escondidos no interior de uma mata ou no topo de uma serra.
"O que distingue a Terceira é precisamente esta diversidade: num único dia é possível escalar junto ao oceano ou em blocos escondidos no interior das matas, sempre rodeado por paisagens vulcânicas muito características."
Basalto vulcânico para todos os estilos
Toda a escalada de bloco da Terceira desenvolve-se em basalto vulcânico, mas isso não significa que os movimentos sejam semelhantes entre setores.
Na Chanoca e noutras zonas costeiras, a rocha tende a ser mais abrasiva, com linhas físicas e placas sobreprumadas.
No interior, em áreas como Chupa Cabras, Veredas e Serra da Ribeirinha, o basalto é geralmente mais suave e polido. Predominam as placas técnicas, presas aplatadas e regletes, favorecendo uma escalada de precisão, em que a colocação dos pés e o posicionamento corporal assumem particular importância.
A Caparica acrescenta uma terceira experiência, com formações singulares onde surgem goteiras, monodedos e bidedos.
Esta variedade permite que a Terceira ofereça problemas adequados a diferentes níveis de experiência.
Embora as linhas mais difíceis e os projetos por resolver recebam naturalmente maior atenção, existem inúmeros blocos acessíveis a iniciantes e escaladores intermédios.
Para Paulo, esta é uma característica importante que merece ser divulgada: a Terceira não é apenas um destino para quem procura dificuldades elevadas, mas também para quem pretende descobrir a escalada em rocha, experimentar novos estilos e desfrutar da paisagem.
Dois blocos que contam a história de uma ilha
Quando lhe pedimos que escolhesse uma linha particularmente representativa da história da escalada na Terceira, Paulo preferiu destacar duas.
A primeira é SOS Cagarro (7C), na Chanoca, encadeada por José Abreu durante a visita da Irmandade da Topalhada, em 2008.
A importância desta ascensão ultrapassa o grau. Na época, representou uma evolução significativa do nível técnico da escalada local e tornou-se uma referência para a graduação de problemas posteriores.
A segunda escolha é Reino Animália (7B+/7C), aberta por Ricardo Costa no setor Terra do Nunca.
A linha apresenta uma formação rochosa que faz lembrar os blocos de Fontainebleau e foi, na altura, um dos problemas mais difíceis abertos por um escalador terceirense.
Para Paulo, Reino Animália simboliza uma fase de descoberta de novos setores e linhas de grande qualidade, em que a exploração assumia um papel tão importante como a própria dificuldade.
Juntos, estes dois problemas representam a evolução da escalada de bloco na Terceira: da descoberta pioneira e das primeiras referências de grau até ao aparecimento de uma geração de escaladores locais capaz de abrir linhas de elevada dificuldade.
Uma comunidade pequena, mas cada vez mais ativa
Apesar do crescimento registado nas últimas décadas, a comunidade de escalada da Terceira continua relativamente pequena quando comparada com os principais centros de escalada do continente.
É, no entanto, uma comunidade dinâmica, formada por diferentes gerações e perfis de praticantes.
Existe atualmente um núcleo significativo de jovens atletas ligados à competição, que alternam os treinos em muro com a escalada em rocha. Paralelamente, tem crescido um grupo de escaladores mais experientes que privilegia os setores naturais e frequenta regularmente zonas como o Chupa Cabras.
A estes juntam-se terceirenses que vivem fora dos Açores ou no estrangeiro e que regressam à ilha durante as férias, aproveitando para voltar a escalar.
Nos últimos anos, começou também a notar-se um aumento do número de visitantes nacionais e internacionais interessados em conhecer os blocos locais.
Ainda que a Terceira não seja atualmente um destino de escalada consolidado, é cada vez mais frequente encontrar viajantes que aproveitam a passagem pela ilha para descobrir as suas linhas.
Estas visitas são particularmente valorizadas pela comunidade, não apenas pela troca de experiências, mas também pela oportunidade de divulgar o potencial da escalada terceirense.
O papel dos Montanheiros e os desafios da insularidade
O Clube Desportivo Montanheiros tem sido uma das estruturas fundamentais para o crescimento da escalada na ilha.
Desde a sua criação, em 2016, o clube tem apostado na formação de atletas, no acompanhamento técnico e na participação em competições regionais e nacionais.
A organização de encontros, eventos e atividades de divulgação tem igualmente contribuído para aproximar novos praticantes da modalidade e manter a comunidade ativa.
Mas o trabalho do clube não se limita à competição ou aos treinos em estruturas artificiais.
Ao longo dos anos, os Montanheiros têm participado na exploração de novas áreas, limpeza de blocos, manutenção de acessos e documentação de linhas, apoiando o desenvolvimento da escalada em ambiente natural.
Numa ilha, porém, existem desafios particulares.
A população reduzida limita o número potencial de praticantes, enquanto a distância relativamente a outros centros de escalada dificulta a participação em formações, competições e encontros.
Outro problema recorrente é a saída dos jovens atletas para estudar ou trabalhar fora da ilha, muitas vezes sem regressarem de forma permanente.
"Há ainda o facto dos atletas formados no clube acabarem por sair da ilha para estudar ou trabalhar e não voltarem. É um constante reiniciar."
Como explica Paulo, este processo obriga a comunidade a uma renovação constante, formando novas gerações de escaladores que poderão acabar por continuar o seu percurso noutros locais.
Por outro lado, o isolamento geográfico também contribuiu para desenvolver uma cultura de autonomia e iniciativa.
Grande parte dos setores atualmente existentes resulta do trabalho voluntário dos próprios escaladores locais, que assumiram a responsabilidade de descobrir, limpar, preparar e documentar os blocos.
Esta dedicação permitiu desenvolver uma atividade que, de outra forma, dificilmente teria atingido a dimensão atual.
Escalar na Terceira: quando ir e o que levar?
Para quem pretende organizar uma viagem de bloco à Terceira, uma das principais vantagens é o clima relativamente ameno ao longo do ano.
As melhores condições de aderência costumam ocorrer entre o outono e a primavera, quando as temperaturas são mais frescas.
O clima açoriano é, contudo, conhecido pela sua variabilidade. Não é invulgar encontrar chuva numa zona da ilha e sol noutra, por vezes a poucos quilómetros de distância.
Segundo Paulo, raramente chove durante um dia inteiro e a diversidade de setores permite frequentemente encontrar alternativas com condições para escalar.
"O clima açoriano é bastante variável e é comum estar a chover numa parte da ilha e a fazer sol noutra."
A reduzida dimensão da ilha facilita também a logística. As distâncias entre zonas são relativamente curtas e praticamente todos os setores podem ser alcançados rapidamente de carro.
Outra vantagem é a possibilidade de contar com o apoio da comunidade local.
O Clube Desportivo Montanheiros disponibiliza crash pads para empréstimo a escaladores visitantes, sendo também habitual que os membros do clube acompanhem quem chega à ilha para mostrar os setores, explicar as linhas e partilhar algumas sessões de escalada.
"Temos no clube diversos crash pad, que emprestamos quando vem cá escaladores, e normalmente conseguimos acompanhar para mostrar as linhas, dar alguns Betas e escalar um pouco com os nossos visitantes."
Para organizar esse apoio, basta contactar o clube com alguns dias de antecedência.
Para uma comunidade relativamente pequena, receber escaladores de outras regiões é uma oportunidade de convívio, aprendizagem e divulgação das suas zonas.
E, naturalmente, existe sempre a possibilidade de algum visitante contribuir para resolver um dos muitos projetos ainda por encadear.
400 linhas documentadas e um potencial que continua a crescer
Apesar das centenas de problemas já registados, o trabalho de exploração e documentação está longe de terminado.
Existem setores inteiros ainda pouco desenvolvidos, enquanto zonas históricas como a Chanoca continuam a necessitar de um levantamento sistemático das linhas existentes.
Uma das principais prioridades dos Montanheiros é concluir esse trabalho e produzir um guia completo e atualizado da escalada de bloco na ilha Terceira.
A publicação permitiria reunir informação sobre setores, problemas, dificuldades e acessos, tornando a ilha mais acessível a escaladores visitantes e facilitando a preservação do trabalho realizado ao longo das últimas décadas.
Outra prioridade passa por continuar a investir na formação de jovens escaladores e na melhoria das infraestruturas de treino, procurando garantir a sustentabilidade da comunidade local.
Mas os planos não ficam por aqui.
Um Festival de Bloco previsto para 2027
Uma das novidades anunciadas por Paulo Vaz é a intenção de organizar um Festival de Bloco na Terceira, previsto para meados de 2027.
O evento, ainda em fase de planeamento, deverá incluir uma competição, um estágio, um encontro de escaladores em rocha e outras atividades paralelas.
O objetivo é promover os diferentes setores da ilha e atrair escaladores do continente e do estrangeiro, dando maior visibilidade à escalada terceirense.
A iniciativa poderá também proporcionar uma oportunidade para reunir diferentes gerações de escaladores, partilhar experiências e apresentar a diversidade de problemas existentes.
E, quem sabe, contribuir para a primeira ascensão de alguns dos projetos que continuam por resolver.
Mais do que promover as linhas de maior dificuldade, a intenção é mostrar que a ilha tem escalada de qualidade para todos os níveis, desde quem está a dar os primeiros passos na rocha até aos escaladores mais experientes.
Do ginásio à rocha: o próximo desafio
Para Paulo Vaz, um dos maiores desafios para o futuro da modalidade não está apenas na abertura de novos setores ou na resolução dos problemas mais difíceis.
Está também em conseguir que os novos praticantes descubram a escalada em ambiente natural.
O crescimento dos ginásios e da vertente competitiva trouxe novas gerações à modalidade, uma tendência que também se fez sentir no Clube Desportivo Montanheiros.
No entanto, muitos destes escaladores têm nas estruturas artificiais a sua principal, ou mesmo única, referência.
Os ginásios desempenham um papel essencial na aprendizagem, no treino e na evolução técnica, mas Paulo considera importante proporcionar aos praticantes a oportunidade de descobrir uma dimensão diferente da modalidade.
"Escalar no meio da natureza proporciona muito mais do que o desafio físico. Proporciona aventura, exploração, contacto direto com a natureza, descoberta de novos locais, partilha de experiências e a criação de laços de amizade."
A escalada em rocha envolve aventura, exploração, contacto com a natureza e descoberta de novos lugares. É também uma experiência social, marcada pela partilha de desafios, pelas sessões entre amigos e pelo tempo passado em ambientes naturais.
Esta ligação ao território pode ainda contribuir para desenvolver uma maior consciência ambiental.
Ao conhecerem e valorizarem os locais onde escalam, os praticantes tornam-se também mais conscientes da importância de preservar os espaços naturais que permitem a existência da modalidade.
Para Paulo, promover a passagem do ginásio para a rocha não significa apenas diversificar a prática desportiva. É também uma oportunidade de aproximar as novas gerações da natureza e de incentivar uma relação mais responsável com o território.
Uma ilha com muito por descobrir
Mais de vinte anos depois das primeiras aberturas junto à costa de São Mateus da Calheta, a Terceira apresenta hoje uma realidade muito diferente daquela que Paulo Vaz encontrou em 2004.
A ilha conta com centenas de problemas documentados, uma comunidade organizada, novas gerações de escaladores e setores que continuam a revelar potencial para linhas de elevada dificuldade.
Da Chanoca ao Chupa Cabras, passando pela Caparica, Serra da Ribeirinha e inúmeras outras áreas ainda pouco conhecidas, a escalada terceirense construiu uma identidade própria, profundamente ligada à paisagem vulcânica e ao trabalho de quem dedica o seu tempo à descoberta e manutenção dos blocos.
O futuro poderá trazer um guia completo da ilha, novos encontros de escaladores, projetos de maior dificuldade e uma comunidade de visitantes cada vez mais presente.
Mas talvez a maior riqueza da Terceira esteja precisamente naquilo que permitiu o desenvolvimento da modalidade ao longo destas duas décadas: a curiosidade de explorar, a vontade de partilhar e a dedicação de uma pequena comunidade que encontrou na rocha uma forma diferente de conhecer e viver a ilha.
Com cerca de 400 linhas já registadas e inúmeras possibilidades ainda por explorar, a Terceira parece ter todos os ingredientes para se afirmar como um destino singular de escalada de bloco em Portugal.
O Rock Climbing Portugal agradece a Paulo Vaz, do Clube Desportivo Montanheiros, pela disponibilidade, pelo testemunho e pela partilha de conhecimento sobre a história e o desenvolvimento da escalada de bloco na ilha Terceira e pela cedência das fotografias que ilustram este artigo. Todos os direitos das imagens pertencem aos respetivos autores.
Retribuir à Comunidade
O Rock Climbing Portugal é um recurso gratuito, mantido com paixão e cuidado. Se o consideras útil, pensa em fazer uma doação para ajudar a cobrir os custos do servidor e apoiar o tempo dedicado a manter a informação precisa e atualizada.